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Aprendiz de Teologia e Filosofia

sábado, 8 de janeiro de 2011

O discipulado é uma opção pela graça (Marcos 2:14)

"E, passando, viu Levi, filho de Alfeu, sentado na recebedoria, e disse-lhe: Segue-me. E, levantando-se, o seguiu."

Discipulado pode ser um constante aprendizado. O livro de discipulado de Bonhoeffer inicia em um ponto de grande interesse para os que querem entender o proceso. Logo de inicio temos a definição de graça segundo o autor. Apresenta a graça como palavra viva, a palavra de Deus. Palavra que o próprio Deus pronuncia de acordo com o seu beneplácito. Essa palavra chega até nós como um gracioso chamado ao discipulado de Jesus; vem como palavra de perdão ao espírito angustiado e ao coração esmagado.



Bonhoeffer trabalha o chamado de Pedro no livro e tece a idéia de uma intervenção tripla da graça no caminho de Pedro, a mesma graça proclamada em três ocasiões diferentes. E foi essa graça que venceu o discípulo, levando a largar tudo por amor do discipulado; foi essa graça quem o impeliu a uma confissão pública; foi ela que chamou o infiel Pedro a comunhão.


Sobre Lutero, o autor escreve dizendo que seu chamado para o convento custou-lhe a dedicação de sua vida. Mas, com o caminho escolhido, Lutero fracassou em relação ao próprio Deus. A auto-negação de Lutero revelou-se nele como a derradeira auto-afirmação espiritual típica dos piedosos. Mas esse não é o discipulado sugerido pelo evangelho. Da primeira vez que foi para o convento, Lutero abandonou muito, menos a si mesmo, menos o seu eu piedoso. Mas quando foi chamado pela ultima vez Deus o chamou. Ele não seguiu o mestre por mérito próprio, mas baseado na graça de Deus. Lutero teve que abandonar o convento e regressar ao mundo. O discipulado, o viver na graça, para ele agora era diferente. O discipulado de Jesus passaria a ser vivido no seio do mundo, diz Bonhoeffer, que completa: “ A obediência perfeita ao mandamento de Cristo deveria acontecer na vida profissional de todos os dias.” Então a vocação secular do cristão recebe nova legitimidade a partir do Evangelho somente na medida em que é exercida no discipulado de Jesus. A graça era para Lutero um resultado, mas um resultado divino, não humano. A graça é o resultado da vida cristã, dado pelo próprio Cristo. Se, porém, a graça constituir premissa básica de minha vida cristã, então, tenho nela antecipadamente, a justificação dos pecados que cometer durante minha vida no mundo. O mundo inteiro tornou-se cristão à sombra dessa graça. Desapareceu o conflito entre a vida cristã e a vida profissional de cidadão mundano. É assustador o quanto depende da forma como uma verdade evangélica é exposta e posta em prática. É a mesma mensagem da justificação tão-somente pela graça; no entanto a má utilização dessa mensagem conduz à completa destruição da sua essência. Para Bonhoeffer, somente quem se encontra no discipulado de Jesus, renunciando a tudo quanto possuía, pode dizer que é justificado tão-somente pela graça.


O chamado ao discipulado exige resposta. A resposta do discípulo não é uma confissão oral da fé em Jesus, mas sim um ato de obediência. O texto de Marcos 2:14 relata esse chamado, e dá ênfase à seqüência imediata de chamado e ação. Para essa seqüência e ação só existe uma razão válida: o próprio Jesus Cristo. É Ele quem chama, e por isso, o publicano o segue. Neste encontro é testemunhada a autoridade de Jesus, que é incondicional, imediata e sem explicações. O fato de Jesus ser o Cristo dá-lhe todo o poder para chamar e exigir obediência à sua palavra. Jesus chama ao discipulado não como ensinador, mas em sua qualidade de Filho de Deus. O que sabemos do conteúdo do discipulado? Segue-me. Vai andando atrás de mim. Eis tudo. O ser humano chamado larga tudo quanto tem, não para fazer algo específico, mas simplesmente por causa daquele chamado, porque de outro modo, não pode seguir os passos de Jesus. Ao lado de Jesus não há mais quaisquer outros conteúdos, pois ele próprio é o único conteúdo. O chamado ao discipulado é, portanto, comprometimento exclusivo com a pessoa de Jesus Cristo. É o chamado da graça. Cristo chama, o discípulo segue; isso é graça e mandamento ao mesmo tempo.


Ser discípulo significa dar determinados passos. O primeiro passo já separa o discípulo de sua situação anterior. Este primeiro passo, antes de mais nada consiste na troca de uma forma de existência por outra. O alcoolista que renuncia o álcool e o rico que distribui seu dinheiro libertam-se do álcool e do dinheiro, mas não de si próprios. Tal obra precisa ser realizada, mas por si própria não liberta da morte, da desobediência e do afastamento de Deus. Temos que dar o primeiro passo. Que significa isso? Significa que só daremos esse passo como convém, se o encararmos não como obra nossa que tem que ser posta em prática, mas unicamente como algo que é feito em obediência à palavra de Jesus Cristo. O desobediente não pode crer; somente o obediente pode crer. É assim que o chamado gracioso de Jesus Cristo ao discipulado se transforma em dura lei: Faz isso! Deixa aquilo!


Bonhoeffer trabalha a questão da obediência como um ponto chave do discipulado. Logo, o chamado ao discipulado de Bonhoeffer faz também uma análise de Marcos 8:31-38. Neste texto o discipulado está no contexto do anuncio da paixão de Jesus. E ao comunicar essa verdade Jesus começa por dar plena liberdade aos discípulos; “Se alguém quiser vir após mim...”. Ninguém pode ser forçado. Depende de decisão individual. Jesus continua dizendo “...negue-se a si mesmo...”. A autonegação consiste em conhecer a apenas a Cristo, e não mais a si próprio. “...Tome a sua cruz...” Somente após termos esquecido de nós mesmos é que estamos preparados para levar a cruz por amor a ele. O chamado de Jesus ao discipulado faz do discípulo um indivíduo. Querendo ou não, ele tem que se decidir, tem que tomar uma decisão sozinho. Cada qual é chamado individualmente e tem que ser individuo sozinho. E desculpe-me a redundância.

Fonte Bibliográfica

BONHOEFFER, Dietrich. Discipulado. Tradução Ilson Kayser. 8 ed. São Leopoldo: Editora Sinodal, 2004.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

A LEITURA

“Sem a leitura, e a liberdade relativa que ela pressupõe, a sociedade, por mais perfeita que seja, não passa de uma Selva."                                                                                                             Albert Camus

Ler é descobrir, ampliar horizontes, expressar o universo individual em interação com os outros, é prática, fundamento da existência, vivenciar outras ciências, dissipar as sombras da mente, transmitir paixão através de novas perspectivas, receber mensagens através da musica, de símbolos e de signos. O que configura a humanidade é o fato de sermos homo-sociais, cidadãos da história, mergulhado de valores, de desejos, de sonhos, possuidores e produtores de linguagem. Construtor coletivo que produz a história como sujeito social da linguagem. O mundo em que vivemos é o mundo das leituras, das palavras, do texto e do contexto, que aumentam a capacidade de percepção, compreensão e aprendizagem. A leitura do mundo é fundamental na rica experiência de compreensão do mundo imediato. “Ao ser introduzido na leitura da palavra, à decifração da mesma fluía naturalmente da leitura do meu mundo particular”. (FREIRE, 1982, p. 11).

A compreensão crítica da importância do ato de ler, através da prática revela uma visão da palavra cuja visão precisa ser superada com urgência. Paulo Freire considera que a leitura do mundo em particular é absolutamente significativa, porque é recriar e reviver uma experiência vivida no momento em que a pessoa ainda não podia ler a palavra. “É preciso ler o mundo para ler a palavra.” (FREIRE, 1982, p. 23).


Ao realizarmos a leitura do mundo adquirimos subsídios para a leitura da palavra. Paulo Freire considera imprescindível que o mundo seja lido para que se possa fazer a leitura da palavra. “A leitura do mundo me foi sempre fundamental à importância ao ato de ler”. (FREIRE, 1982, p. 28). A leitura é decorrente do conjunto de conhecimentos e informações a qual constitui uma determinada forma de ver o mundo. Existem muitas concepções de leitura cuja dinâmica envolve componentes sensoriais, emocionais e racionais: A leitura sensorial: é uma leitura inicial, quando o leitor despertará com letras, cores, ilustrações, quando a história é contada desperta a imaginação e o lúdico do leitor, onde este cria suas fantasias.


O gosto de ouvir Caetano Veloso revela nele e neste gosto a peculiaridade de ler o que está além da leitura. O sentimento, a ortodoxia tropical, a leitura emocional que quando faz contato do leitor desse nível em contato com a leitura é dominado por seus sentimentos. A emoção ressalta a necessidade do ser humano de fugir da realidade em que vive nesse nível a emoção é mais forte que a razão.


A leitura não pode ser confundida com a reprodução de informações, ao ato de ler devem ser atribuídos significados e, nesse sentido em contato com o texto o leitor deixa aflorar seu conhecimento de mundo, interesses e opiniões. Ler é uma experiência individual, interpessoal e dialógica, individual porque significa um processo particular de processamento de informações de um texto. Mas os sentidos não se encontram no texto ou no leitor, exclusivamente, mas sim, entre ambos, tornando assim a leitura dialógica. Se pode-se ler, pode-se tudo. Cada leitor aciona seu universo de conhecimentos no ato da leitura, o que possibilita uma análise mais profunda dentro desse processo. No conhecimento o maior será o que mais lê. E somente enquanto issso: quando lê. Quando se fala em leitura, o que vem à mente em primeiro lugar é a decodificação da linguagem escrita, porém o conceito vai muito além dessa visão.
O ato de ler traduz-se em interagir, interpretar, compreender. A leitura dá condições de optar e decidir sobre o universo que nos rodeia. Ler é dar contexto a todos os textos. Quem lê pensa, adquire forma própria de pensar e não aceita a interpretação oficial de tudo. Quem lê desestrutura universos dos padrões convencionais e reorganiza o mundo através da palavra. A leitura é para a vida uma maneira de se encontrar e ampliar perspectivas, principalmente para aqueles que moram longe do conhecimento.

A leitura não resolve os problemas sociais, mas transforma-se em conhecimento: quem está informado faz melhor escolha. Leitura é fruição, trabalho, método, pesquisa, busca de informações: aprendizado. A leitura viaja sem desprender-se da raiz. O ato de ler acaba provocando a memória do leitor e nela seus sonhos. Lemos para compreender, ou para começar a compreender. Quem lê tende a se expressar cada vez melhor e com mais identidade. Isso sem contar o papel emancipador da leitura, principalmente, para camadas sociais historicamente privadas ou com poucas possibilidades de leitura. A leitura é uma experiência de sentidos e significados: um jogo entre o leitor e o texto.
O leitor necessita de desafios, deve ler novidades e gêneros textuais diversos; os livros devem ser inseridos conforme a progressão do seu contexto de leitura. A paixão pelos livros transforma as palavras, tornando-as cheias de significados.

Como disse o italiano Umberto, a  redescoberta da paixão pela leitura traz o entendimento de que a vida precisa ser lida como um livro que se abre nos vários sentidos de suas páginas e que as obras literárias convidam à liberdade de interpretação porque propõe um discurso com muitos planos de leitura, defrontando-nos com a ambigüidade da linguagem. (ECO, 2001, p. 29).

Parafraseando Paulo Freire a leitura da palavra é precedida pela leitura do mundo. Através da leitura do mundo é possível ter palavras para reescrevê-lo e transformá-lo.
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Fontes
ECO, Umberto. Sobre a literatura. Trad. Alberto Gumus. São Paulo: Record, 2001
FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler . São Paulo: Cortez. 26. ed., 1982